A propósito de Promised Neverland

The Promised Neverland é uma história verdadeiramente original criada por Kaiu Shirai e brilhantemente ilustrado por Posuka Demizu. O Sr. Sugita, editor da série, fala-nos na sua criação.

Pensou sempre em ter um argumentista e um ilustrador diferentes para esta série?

Sugita: O Sr. Shirai temos a mesma opinião sobre o assunto. The Promised Neverland é um mangá bastante ambicioso, o artista tem que descrever um mundo de fantasia e de suspense. A história é desafiadora, e nós dois pensámos que seria difícil para uma pessoa só criar o argumento e a ilustração simultaneamente. Estávamos preocupados em encontrar o ilustrador certo para a série.

Porque é que escolheu a Sra Demizu?

Sugita: Perguntamos primeiro ao Sr. Shirai quem ele queria ter para ilustrar o mangá. Apresentei-lhe alguns ilustradores famosos, mas tivémos dificuldade em agendar reuniões e encontrar alguém cujo estilo se adaptasse à história. Então apareceu a Sra Demizu. Ela é uma artista de que também gosto muito e decidimos perguntar-lhe se estaria interessada em fazer a ilustração do mangá.

Qual foi a sua reação?

Sugita: Ela gostou muito do esboço e disse imediatamente que sim. Ficámos muito contentes e entusiasmados quando aceitou.

A que prestou mais atenção até agora, ao desenvolver “The Promised Neverland”?Promised Neverland

Sugita: À primeira vista, “Neverland” não parece um mangá “Jump” destinado a jovens leitores. Eu sinto que é um género simples de mangá, em que os personagens principais superam desafios com muito trabalho e com a ajuda de seus amigos, o tipo de mangá que era popular nas décadas de 70 e 80.

Existir essa essência de um bom mangá, clássico da Jump é algo que eu tinha em mente antes de sua serialização, especialmente porque é um mangá sem sequências de combate explosivas ou movimentos especiais.

Para o prazer e satisfação dos leitores, Shirai e eu construímos cuidadosamente os pormenores da história e dos personagens concentrando-nos em ilustrar os jogos mentais, a alteração de humores e as relações, sentimentos e pontos de vista dos personagens. Também nos afastámos de algumas tendências extremas, como “ero-guro (erótico e grotesco)”, “violência” ou “absurdo”, que ocasionalmente encontramos nos mangás online japoneses. Isso faria com que fosse apenas um mangá comum, algo que não queremos. Essas referências existem no mínimo possível e apenas quando são necessárias para o desenrolar da história.

O seu plano foi sempre fazer de Emma, Norman e Ray os três personagens principais?

Sugita: Esses três personagens, a mãe e os Demónios, surgiram logo no início. Mas havia uma coisa que me preocupava. Tradicionalmente, a revista Jump foi sempre uma publicação de mangá para rapazes, por isso estava preocupada com o facto de que para um mangá com uma personagem principal feminina, pode ser difícil conquistar popularidade suficiente para ser serializado. Eu disse ao Sr. Shirai que talvez tivéssemos que mudar o elenco e tentamos criar uma versão em que Emma fosse um rapaz, mas não resultou. No final, decidimos fazer o que nos parecia certo.

No decorrer do processo, conversávamos frequentemente sobre os filmes da Ghibli. A maioria dos filmes da Ghibli tem combinações de personagens semelhantes, em que o personagem principal é feminino e um personagem masculino importante o apoia. Como os filmes Ghibli são muito populares, não apenas no Japão, mas também em todo o mundo, achámos que ter uma personagem principal feminina não seria um problema.

Ouvi dizer que o título era originalmente Neverland. Porque foi alterado para The Promised Neverland?

Sugita: Isso deveu-se apenas a questões de licenciamento.

Muitos trabalhos no Japão e em todo o mundo usam a palavra “Neverland”, o que não era favorável para fins comerciais. Considerando como se desenrolaria a história, o Sr. Shirai e eu queríamos manter “Neverland” no título e depois surgiu “Promised”, o que no pareceu adequado. Na verdade, já tínhamos uma ideia muito concreta dos primeiros episódios da história.

Qual é o papel do editor para um artista de mangá?

Sugita: Existem muitos géneros de artistas, por isso não me parece que o papel do editor seja sempre o mesmo, mas os editores pretendem que os artistas se superem a si mesmos. Quando somos capazes de fazer isso, descobrimos coisas que nunca imaginámos, ou ganha uma confiança que, de outra forma, talvez não tivesse conquistado.

O mesmo acontece com Emma e os outros personagens. Quanto mais duras as adversidades, mais fortes eles crescem. Sinto que as pessoas evoluem e se desenvolvem quando enfrentam desafios. Eu tento sempre ser honesto em relação a um trabalho de mangá. A melhor maneira de servir o artista é ser um leitor honesto. Para além disso, não vale a pena pensar muito na sua função de “editor”, o que é importante é ter o ponto de vista de um leitor do trabalho deles e não de um editor. É por isso que, quando um artista nos mostra o seu trabalho devemos lê-lo como qualquer outro leitor.

Quero ler como lia quando era criança, quando o ponto alto da minha semana era ler a última “Jump”. Assim, posso dizer honestamente ao artista o que me incomodou, o que me preocupa e do que gostei. Devemos também usar a lógica, experiência e dados para apoiar as nossas opiniões. Com essa base, trabalhamos com o artista para encontrar a melhor maneira de comunicar o que ele quer expressar.

Traduzido e editado a partir de: “The Making of a Jump Manga!